Para marcar mais um aniversário de Campinas, a 14 de julho de 2002, o jornal
“Correio Popular” publicou um caderno sobre o patrimônio histórico da cidade. Eu
não estava mais no jornal, mas escrevi uma matéria especial sobre o convite que
o ex-prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho, havia feito para Oscar
Niemeyer desenhar o projeto de um teatro para Campinas. Era um dos sonhos mais
acalentados por Toninho, assassinado a 10 de setembro de 2001. Naquele que foi o
primeiro aniversário de Campinas após essa tragédia, o artigo revelou o apelido
carinhoso que Niemeyer deu para Toninho, “Juscelininho”. Abaixo, a reprodução do
texto da matéria de dez anos atrás mas com tema tão atual, pois ainda não há
perspectiva concreta de construção do teatro:
“Juscelininho” queria um teatro novo. O mago Niemeyer tirou o projeto
da cartola
“Calma Juscelininho!” O arquiteto Oscar Niemyer gostava de comparar o seu
companheiro de profissão, Antonio da Costa Santos, com o presidente Juscelino
Kubitschek, que se projetou na história nacional como o símbolo do período em
que o Brasil queria crescer “50 anos em 5″. JK, que governou o país entre 1956 e
1960, tinha pressa, e de seu delírio desenvolvimentista resultou uma das maiores
obras da história da arquitetura, a cidade de Brasília, idealizada nas
pranchetas mágicas de Lúcio Costa e do próprio Niemeyer.
Pois foi a Niemeyer que o prefeito Antonio da Costa Santos recorreu, para
conceber o projeto de um teatro de ópera para o centro histórico de Campinas. A
construção de um teatro de grandes dimensões – com capacidade para 1.400 pessoas
– para apresentações de peças, shows e outras atividades culturais era um
ingrediente estratégico no plano que Toninho havia idealizado para a
revitalização do centro da cidade.
Como observa a esposa, Roseana Moraes Garcia, Toninho era um dos campineiros
mais inconformados com a perda de dois ítens do patrimônio histórico local,
o Teatro São Carlos, derrubado em 1922, e o seu sucessor, o Teatro Municipal,
demolido em 1965. O Teatro Municipal havia sido construído em um espaço muito
próximo de onde o Teatro São Carlos ficou instalado por por cerca de sete
décadas, atrás da Catedral, na atual praça Rui Barbosa.
A edificação de um novo teatro no mesmo local seria praticamente impossível,
em função da atual configuração urbanística da área central. Toninho discutiu
pessoalmente o assunto em duas oportunidades com Niemeyer.
O prefeito não chegou a ver o projeto pronto. Niemeyer apresentou uma solução
após discussões com Marco do Valle, membro da equipe de confiança formada por
Toninho para “pensar a cidade”, como gostava de afirmar. A solução encontrada,
para a localização do novo teatro de Campinas, foi utilizar a área empregada
como terminal rodoviário urbano, entre a avenida Moraes Salles, o Palácio dos
Azulejos e as ruas Regente Feijó e José Paulino.
Esta não era a intenção original de Toninho, que pretendia construir um museu
multimídia no espaço onde está o terminal de ônibus. O museu também abrigaria os
estúdios da rádio e TV municipal. Este foi o único local, entretanto, que acabou
viabilizando o projeto de Niemeyer.
Como parte essencial do plano global para o Centro, o projeto
arquitetônico do novo teatro municipal foi encomendado diretamente pelo prefeito
ao mago Niemeyer. O renomado idealizador dos principais edifícios da capital
federal, do complexo da Pampulha em Belo Horizonte e de outras obras fundamentais
da arquitetura brasileira teria uma reunião com Toninho no dia 13 de setembro do
ano passado, quinta-feira - e não sábado, dia 15, como chegou a ser divulgado. A
reunião com Niemeyer, que viria a Campinas nesse dia, havia sido acertada na
manhã de 10 de setembro. “Ele estava muito entusiasmado com a visita”, lembra
Marco do Valle.
A reunião acabou não acontecendo. Toninho foi morto na noite daquele 10 de
setembro – data em que, há 71 anos, era inaugurado o Teatro Municipal de
Campinas, sucessor do Teatro São Carlos. Niemeyer ficou muito abalado com o
assassinato, mas deu continuidade ao projeto, apresentado em linhas gerais para
Roseana, Marco do Valle e outros profissionais. Professor no Instituto de Artes
e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, Marco do Valle era a pessoa
certa para o contato com Niemeyer. Sua tese de doutorado na USP foi sobre a
trajetória do arquiteto: “Desenvolvimento da forma e procedimento de projetos na
obra de Oscar Niemeyer: 1935-1998″.
Na tese, Valle mostra como Niemeyer desenvolveu um repertório de formas que
acabou utilizando, com releituras e variações, ao longo de sua obra. “O
Oscar tem um estilo único de acomodar as construções no terreno, como se elas
estivessem pousadas sobre o solo”, observa Marco do Valle.
O professor da Unicamp observa ainda em sua pesquisa como Niemeyer, em sua
opinião, desenvolveu um estilo influenciado pela forma de calcular principalmente de dois engenheiros, Emilio Baumgartem e Joaquim Cardoso. Com
base nos estudos de cálculo de Baumgartem ele desenvolveu o projeto do Estádio
Nacional, que acabou não sendo construído e que seria erguido onde está o
Maracanã, no Rio de Janeiro.
Características do projeto estão presentes no Memorial da América Latina, em
São Paulo. Sob influência dos cálculos aprimorados por Cardoso, o genial
arquiteto concebeu obras como a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha,
com suas incríveis parábolas.
Como mostra a maquete que repousa sobre uma mesa no escritório do arquiteto,
em Copacabana, no Rio de Janeiro, o projeto do teatro de Campinas tem algumas
dessas marcas pessoais de Niemeyer, um artista sempre polêmico e provocador. As
formas ondulantes que o consagraram estão lá, prontas para duelar com retas
sóbrias e e repetitivas dos prédios construídos na segunda metade do século 20
no centro da cidade. O projeto exibe uma forma piramidal, mas com lados em
curva. O estacionamento seria subterrâneo. Um elevador levaria os visitantes até
um foyer que daria acesso ao teatro e a uma galeria para múltiplas
exposições.
Não deixou de ser um desafio para Niemeyer idealizar um teatro para um espaço
relativamente pequeno como o do antigo terminal de ônibus urbano. Normalmente o
arquiteto trabalha com espaços maiores, que permitem maiores alternativas de
composição. Mas ele acabou sucumbindo à insistência de “Juscelininho”
campineiro, que também parecia ter pressa, como o presidente bossa nova.